A discussão sobre supersalários no Judiciário voltou ao centro do debate nacional em 2025, e o Maranhão aparece entre os estados com números que chamam atenção. Levantamento divulgado pela Transparência Brasil em parceria com a República.org, com dados publicados pelo portal Poder360, mostra que tribunais estaduais e do Distrito Federal desembolsaram ao menos R$ 10,7 bilhões acima do teto constitucional ao longo do ano.
No caso do Maranhão, os dados revelam um cenário expressivo. Ao todo, 116 magistrados receberam valores superiores a R$ 1 milhão fora do teto, colocando o estado entre os que concentram as maiores remunerações acima do limite legal.
PENDURICALHOS IMPULSIONAM OS SUPERSALÁRIOS
O crescimento dos supersalários no Judiciário está diretamente ligado aos chamados penduricalhos, que são verbas classificadas como indenizatórias e, por isso, não entram no cálculo do teto constitucional. Entre os principais exemplos estão os pagamentos retroativos, que somaram cerca de R$ 4 bilhões em todo o país, e os adicionais por acúmulo de funções, que chegaram a R$ 2,6 bilhões.
Esses mecanismos permitem que os contracheques ultrapassem com folga o limite oficial, mesmo quando o salário-base permanece dentro das regras.
MAIORIA DOS MAGISTRADOS ULTRAPASSOU O TETO
Os números mostram que a prática não é isolada. Em nível nacional, 98% dos juízes e desembargadores receberam acima do teto em pelo menos um mês de 2025, cujo limite atual é de R$ 46.366,19.
De um total de 15.020 magistrados com dados completos, 13.215 receberam ao menos R$ 100 mil acima do teto, enquanto 3.819 ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão. Mais da metade, equivalente a 56%, acumulou ganhos extrateto superiores a R$ 500 mil.
OUTROS ESTADOS TAMBÉM REGISTRAM VALORES EXPRESSIVOS
O fenômeno dos supersalários no Judiciário se espalha por diversos estados. O Tribunal de Justiça de São Paulo lidera em volume total de pagamentos acima do teto, enquanto o Tribunal de Justiça do Piauí chama atenção pelos valores individuais, com casos que chegaram a R$ 2,8 milhões para um único magistrado.
Em média, a remuneração bruta mensal dos magistrados estaduais ficou em R$ 99 mil, mais que o dobro do teto constitucional. Em 76% dos casos, os rendimentos médios ultrapassaram R$ 70 mil por mês.
BRECHA LEGAL SUSTENTA OS PAGAMENTOS
A origem dessa distorção está em uma brecha aberta por uma emenda constitucional de 2005, que permitiu excluir verbas indenizatórias do teto. Na prática, isso criou espaço para a expansão dos penduricalhos, que hoje são o principal motor dos supersalários no Judiciário.
Embora a Constituição determine que os salários do funcionalismo respeitem o limite definido pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, a interpretação dessas verbas segue sendo alvo de críticas e questionamentos.
STF COMEÇA JULGAMENTO QUE PODE MUDAR O CENÁRIO
Diante da repercussão, o Supremo Tribunal Federal iniciou o julgamento sobre a legalidade desses pagamentos. A análise envolve ministros como Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
A decisão pode estabelecer uma nova regra nacional para limitar os supersalários, trazendo mudanças significativas na forma como a magistratura é remunerada no Brasil.
Enquanto isso, o debate segue aberto e levanta uma questão que ecoa entre especialistas e a população: até que ponto os chamados penduricalhos respeitam o espírito da Constituição?


